Carta aberta - Vida

22/03/2016

Carta aberta para falar da vida
 

Não consegui pensar em escrever este texto senão falando olhos nos olhos, de coração para coração, visto que o assunto é precioso e delicado e, como tal, merece uma conversa séria e profunda. Não pretendo esgotá-lo nem teoriza-lo, apenas trocar ideias a partir de um fato que estamos vivendo de perto nos últimos dias: a morte repentina de uma pessoa muito jovem. E sofremos.

Comecemos pensando na vida: nascemos para ela com um corpo pequeno, frágil, totalmente dependente, faminto, chorão e dorminhoco. Este corpinho é o invólucro, a casa daquilo que somos, de nossa essência, de nossa consciência, de nossa vontade, de nossa personalidade, daquilo que é o “sopro de Deus” em nós. Nosso corpo vai crescer, mas vai ter que ser alimentado, vacinado, lavado, cuidado, agasalhado, abrigado, acarinhado, protegido. O que vai permitir que nosso corpo viva uma história, única e exclusiva, é aquilo que o move, que decide o que fazer e o que ser, isto é, o nosso espírito.

Nosso corpo tem limites: se cair da árvore, quebra a perna e o braço; se pisar no vidro, vai cortar e ter de costurar; se encontrar um vírus, vai ficar doente, ter febre; se pegar infecção, vai cair de cama e ter de tomar muitos remédios; se desenvolver um tumor, vai ter que lutar bravo contra ele; se for picado pelo mosquito errado, vai pegar dengue... e no decorrer dos anos, esse corpo vai experimentar todo tipo de dores: de barriga, de cabeça, nas costas. E vai pegar muitas doenças e vai emagrecer e engordar e vai se mostrar cada vez mais frágil... e os cabelos vão mudar de cor, os passos ficarão mais lentos e os olhos mais cansados. Dizem os cientistas que nosso corpo pode viver até 116 anos, mas boa parte das pessoas não festeja nem os cem anos.

Nesse corpo que se transforma, que gera outra vida, que expressa seus sentimentos, sua afetividade e sua sexualidade, que se movimenta forte nos esportes e suave na dança, que cria, que cura, que faz artes, que produz música, que inventa foguetes, que vai para o espaço, vive, livre e com um imenso desejo de infinito, de plenitude, a sua alma que não vai viver 116 anos, mas eternamente.

É o limite do nosso corpo que, um dia, o impede de continuar vivendo. A isso chamamos morte. E dela todos temos certeza, mesmo que não queiramos pensar ou falar a respeito. Ela é natural para todos os seres vivos. Contudo, é belo o envelhecer porque significa uma história que foi vivida e a morte chega como o epílogo de um livro que foi emocionante de ler. Não é fácil ver beleza na morte das crianças vítimas da subnutrição ou de doenças dolorosas; não é fácil entender a morte dos jovens atingidos pela violência das armas ou das drogas; não é fácil fechar os olhos de um pai de família que deixa os filhos pequenos ou de uma mulher que se dedicava a cuidar dos pobres e abandonados do mundo e que os preconceitos e os extremismos encurtaram seus dias.

Viver não é fácil, mas é maravilhoso.

É maravilhoso porque nosso espírito vê, entrevê, adivinha, intui, sabe que, se o corpo é limitado pelo tempo e pelas circunstâncias, aquilo que o move dá um sentido até ao seu limite. A morte não é o fim, mas uma passagem para o infinito que carregamos latente dentro de nós.

A vida é muito complexa, o universo é imenso e desconhecido, nosso próprio planeta é fantástico, cada ser é um tesouro sem preço. E conhecemos ainda tão pouco. Não é possível que todo o amor que move a existência das pessoas se dissolva quando o coração para de bater. Creio na vida, nessa vida tão inexplicável por palavras que Deus nos deu. Creio que Ele me deu um espírito que tem os seus traços de pai, para que eu construa uma história, para que eu seja feliz, faça os outros felizes e ame intensamente. E ser feliz não exclui a possibilidade de ter de enfrentar a dor e o sofrimento.

Sofremos, sim, porque os que amamos se vão, mas podemos chorar a dor da saudade, não o desespero do nada, do fim. Se Deus nos deu a vida e ela é tão maravilhosa, apesar de finita, o que não terá preparado para a vida que depois da passagem será eterna? É preciso ter Fé.

Muitas vezes, as lágrimas nos impedem de ver e entender muitas coisas e a dor aperta tanto que parece que vamos sufocar, e as contradições humanas quase nos fazem perder a fé na humanidade...  aí é preciso guardar firme a Esperança, como uma luz bem acesa no alto. No final, vence o Amor que é mais forte do que a morte, que as nossas dúvidas, que a nossa dor.
                                                                            
                                                                                                                                                          P.B.

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