Especialistas respondem à Veja

02/06/2010

Educar, grande desafio para pais e professores. Escolher o melhor método, a melhor proposta pedagógica não é e talvez jamais seja tarefa fácil. Por estes e outros motivos, a complexidade que envolve o tema gera tanta polêmica e discussões acerca do melhor caminho a se seguir.
Há algumas semanas a revista Veja publicou uma matéria intitulada “Salto no escuro”, em que o autor Marcelo Bertoloti critica veementemente a concepção construtivista de educação. Contrapondo essa matéria, cujo conteúdo está disponível no site da revista, alguns educadores e estudiosos exerceram seu direito de resposta enviando cartas à redação da Veja e a instituições de ensino.

Leia abaixo:

PARA:
DIRETOR DE REDAÇÃO - VEJA
Cecília Iacoponi Hashimoto

A reportagem EDUCAÇÃO: SALTO NO ESCURO, (Revista Veja, 12 de maio, p.118-122) me assustou! Desde o título até o seu teor! Fica claro que quem está saltando no escuro é quem escreve. Mediante afirmações categóricas, carregadas de “lugares comuns” e preconceitos tais como: “As interpretações livres do construtivismo podem ser desastrosas”(...) só as do construtivismo, pergunto eu, ou toda e qualquer interpretação cunhada no senso comum, sem fundamento nem estudo , também não incorrem no erro? (...) “especialmente quando a escola adota suas versões mais radicais “ quais são as mais radicais? Que referencial teórico está corroborando tal afirmação? Desde quando existe versão radical e leve do construtivismo?
Outra colocação:“ jogar a responsabilidade de como aprender sobre os ombros do aprendiz não é estúpido. É cruel”. É outra interpretação equivocada que se disseminou, pela falta de conhecimento, estudo e informação.
Essa, então é de chorar! “Em um país como o Brasil, onde as carências educacionais são agudas, em especial a má formação de professores, a existência de um método rigoroso, de uma liturgia de ensino na sala de aula, é quase obrigatória”. (p.120). Será? Ou justamente por conta da carências e diferenças, há que se pensar em novas formas de abordagem que atendam às especificidades dos regionalismos e particularidades?
Vale à pena estudar mais, apropriar-se dos conceitos que envolvem o construtivismo, perceber suas ações, suas bases teóricas, obter referências de sucesso, especialmente em nosso país. Quem escreve precisa conhecer a respeito do que escreve. Está na hora de parar de apedrejar o construtivismo sem conhecimento de causa, deixar de repetir o jargão que tantos dizem a respeito. De nada contribui uma reportagem que traz o que já foi dito há alguns anos, rechaçando esta abordagem de ensino, este outro olhar para o sujeito que aprende e consequentemente, o papel do “professor que professa” ( como cita o artigo).
Pelo teor da reportagem, não há saída, só nos resta a tradicional cartilha, igual para todos, com seus conteúdos pré-estabelecidos, sem oportunidade de considerar as diferenças, nem tampouco as mudanças no mundo e na infância. Seguir o modelo, preencher o pontilhado, responder estudo dirigido com a cópia da resposta dada pelo professor, treinar, treinar, treinar. Resta saber que individuo está sendo considerado, para ser formado para que mundo, para qual sociedade, com quais parâmetros? A sociedade, hoje, requer um ser participativo, cooperativo, criativo e autônomo. Como tornar cidadãos conscientes, atentos a heterogeneidade e multiplicidade de situações e autônomos se o que está sendo valorizada, por esta reportagem, é a forma igual para todos? O convite do construtivismo é perceber o entorno, respeitar as diferenças, aprender nas interações sociais com o outro, considerar a historicidade, ver o mundo com outras lentes que não apenas as instituídas e formalizadas pela escola e sociedade. Ter oportunidade de opinar, errar, pensar, dialogar. Este lado que a reportagem nos traz é apenas uma faceta do que significou, de início, uma filosofia mal interpretada. Dizer que “ao ser exposto repetidamente àquela grafia que se refere a um objeto conhecido, ele acabe por assimilá-la, como por osmose” é o fim da picada da falta de leitura e compreensão sobre a psicogênese da língua escrita, tão difundida por Ferreiro e Teberosky! Definitivamente, quem escreveu este artigo deve se debruçar mais sobre o tema e tentar aprender, com Vigotsky e Piaget o verdadeiro sentido do conhecimento.


São Paulo, 10 de maio de 2010.

Ao Senhor Diretor de Redação
VEJA

Prezado Senhor

Como antigo assinante desta revista e estudioso do Construtivismo, segundo Piaget, venho lamentar a publicação, em 12 de maio, da matéria “Salto no escuro”, escrita pelo Senhor Marcelo Bortoloti. Três semanas atrás, esta mesma revista, já publicara matéria contra o Construtivismo, escrita pelo Senhor Cláudio Moura Castro.
O texto do Senhor Marcelo Bortoloti é superficial, tendencioso e mal orientado. É isto que a Veja entende por jornalismo científico? Como posso continuar assinando esta revista e sustentar minha confiança em suas matérias, sobretudo naquelas em que me sinto ignorante, se - a respeito do que venho estudando desde 1968 -, o que observo é algo totalmente sem respeito?
Indico abaixo os pontos de minha divergência como Senhor Botoloti:
1. Não há dogmas no construtivismo;
2. O construtivismo se caracteriza pela visão de enfrentamento (via realização ou compreensão) de problemas que requerem conclusão; se errada, o desafio é aprender com os erros:
3. Culpar os professores que se dizem construtivistas e não compreendem o que significa, para dai concluir que o construtivismo é responsável pelo fracasso da educação brasileira é simplificador e torpe, próprio de quem escreve sobre aquilo que não entende e, pior que isto, escreve com a motivação de confundir e “desconstruir”;
4. O quadro “A desconstrução do construtivismo”, em que este autor compara “pedagogia tradicional” X “construtivismo”, é de uma banalidade e falta de informação que causa dó e desrespeito em alguém minimamente informado sobre o assunto.
5. Meu pressuposto, pautado no excelente trabalho da Editora Abril, com a Revista Nova Escola e outros projetos educacionais, era que ela valorizava e somava forças com esta imensa tarefa de defender uma escola para todos, apesar das dificuldades deste projeto. Com a publicação deste artigo e do anterior percebo que a Veja é contra esta ideia, sendo favorável ao “melhor da escola tradicional”, com sua visão determinista, favorável à seleção dos mais aptos, o que exclui a maioria de nossa população de crianças e jovens. Que pena!
6. Culpabilizar, enfim, professores e gestores por suas dificuldades em aplicar ideias construtivistas, no Brasil, é injusto, superficial e tendencioso, pois não considera a complexidade de se aplicar princípios teóricos e epistemológicos à prática pedagógica; ignora, também, o muito que se tem feito e conseguido, apesar de tudo. Além disto, minimiza, vulgariza e desengana todos aqueles que, apesar da complexidade desta imensa tarefa, não desistem e aceitam o desafio de uma escola para todas as crianças e jovens.


Concluo informando que vou cancelar minha assinatura desta revista, porque perdi o respeito e a confiança que tinha por ela.
Atenciosamente

Lino de Macedo
Professor Titular do Instituto de Psicologia, USP.
 


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