Em tempo de Quaresma

06/03/2015

Em tempo de Quaresma
 
Os quarenta dias que antecedem a Páscoa são destinados à preparação a esse evento maior que é a ressurreição de Cristo Jesus. É  um tempo que poderíamos chamar de grande “investimento na vida”. Em primeiro lugar, na nossa própria vida, para torná-la melhor, mais livre, mais verdadeira; em seguida, um investimento para a vida do irmão, pela vida daquele que ainda não reconhecemos como irmão. O fruto desse “investimento” é generoso: será a própria Vida que Deus renova, por amor, em nós.
Para ajudar um pouco nossa reflexão a respeito do sentido que damos a nossa vida, propomos a leitura de um texto. Que a nossa busca seja decidida e que nossos passos não nos deixem no deserto, mas que sejam guiados pelo Espírito de Deus até o irmão.

Caçador de desertos 
                                      
                Vivia na cidade. E acostumara-se a dizer-se só, a sentir-se realmente solitário.
Ele e tantos outros.
                Certa vez, ouviu alguém dizer que só Deus preencheria o molde de sua solidão, mas que era preciso procurá-lo. Pensando em sua triste e solitária condição, achou que valeria a pena empenhar-se na busca, ainda que difícil.
                E pela lógica, visto que Deus certamente não estava na cidade cheia de gente, partiu rumo aos desertos do mundo.
Ele e tantos outros.
                No primeiro deserto a que chegou, sentiu-se perdido. Não havia sinal de vida nem de Deus, constatou, apenas um vento ensurdecedor. Tapou os ouvidos, cobriu a cabeça e tentou caminhar. Protegeu-se do sol, da areia e lembrou-se dos venenosos escorpiões do deserto. Notou alguns restos de acampamento e teve medo de que houvesse ladrões por ali.
                Passou cinco dias e cinco noites infernais, à procura de seu Deus, mas nada encontrou. Aliás, nem escorpiões nem bandidos.
                Abandonou o primeiro deserto, decepcionado. E procurou um segundo.
                Ele e tantos outros.
                No segundo deserto, não havia areia, apenas frio, um horizonte infinito e um vento ensurdecedor. Quis acender um fogo, mas o vento apagava, quis armar uma tenda, mas o vento desfazia. Tapou, então, os ouvidos, cobriu a cabeça e tentou caminhar. Protegeu-se do frio, da neve e lembrou-se dos famintos lobos do deserto. Notou alguns restos de acampamento e teve medo de que houvesse bandoleiros por ali.
                Passou três dias e três noites infernais, à procura de seu Deus, mas nada encontrou. Aliás, nem lobos nem bandoleiros.
                Abandonou o segundo deserto, ainda mais decepcionado. E nem procurou um terceiro.
                Ele e tantos outros.
             Voltou para casa, para o seu deserto. Nesse havia poeira, frio e um vento ensurdecedor. Quis tapar os ouvidos, cobrir a cabeça, acender um cigarro, chamar um táxi, mas nada fez, porque estava tão fraco, doente e decepcionado, que se deixou ficar ali, jogado num banco de estação. Pensou nos bandidos, nos bandoleiros e na polícia. Mas esses, também, não vieram.
            Passou um dia e uma noite infernais, à procura de seu Deus. E como tivesse a cabeça descoberta e os ouvidos não tapados, pode ouvir, apesar do vento, a voz de um outro que lhe oferecia um copo de café. Como sempre tivesse medo de bandidos e bandoleiros, não olhou para o rosto do desconhecido, mas reparou no copo de alumínio, típico dos exploradores do deserto, e nas mãos sujas, tão parecidas com as suas. E o outro contou-lhe sua história em dois desertos e sua dor na busca de seu Deus. E como havia reconhecido nele seu vizinho de apartamento.
             Ambos fizeram a mesma viagem, tiveram a mesma decepção e voltaram sem nada encontrar. Mas o Deus de todos os povos, de todos os seres revelou-se a eles: um ao outro mostrou seu coração peregrino endurecido pelos medos, seus ouvidos tapados aos apelos dos ventos do mundo, sua cabeça coberta para se proteger dos desafios.
         Ainda bem que o outro não era cego e trabalhava numa loja de calçados: reconheceu o vizinho pelos sapatos que ficava observando no elevador, enquanto evitava olhar para as pessoas que, todos os dias, à mesma hora que eles, saíam daquele prédio para ir trabalhar.
Voltaram para casa silenciosos, emocionados. Um apoiado no braço do outro, pensavam em tantos outros que, como eles, vagaram pelo mundo solitários, incapazes de sentirem o pulsar da vida.
               Enquanto isso, um vento forte sussurrava-lhes segredos de nosso Deus.
 
                                                                                                                                    B.T.

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