CARNAVAL É FOLIA.

11/02/2010

 

Em plena febre do Twitter, um desafio: experimente sintetizar o Carnaval em magros 140 caracteres. Mesmo quem é hábil em microblogging e tuíta com frequência vai ter dificuldade de espremer uma festa tão grande, tão diversa e, principalmente, com história tão rica, em tão apertado espaço. “Festejo regado a samba, suor e cerveja. Dois dias de luxo no Sambódromo, além de 465 blocos em vários bairros e milhões de pessoas nas ruas”, eis um possível tweet para a folia do Rio de Janeiro. “Festejo regado a axé, suor e cerveja. Seis dias com 234 agremiações em três circuitos e milhões de pessoas nas ruas. Recomenda-se usar abadá”, seria uma síntese viável para o reinado de Momo em Salvador. “Festejo regado a frevo, suor e cerveja. Em Recife, Galo da Madrugada arrasta 1,5 milhão. Em Olinda, 700 agremiações e bonecos gigantes”, um microtexto que caberia para os dias de folia em Pernambuco.

Música, fantasia e estado alterado de percepção – hoje pelo álcool, no passado também pelo lança-perfume – são três elementos-chaves do Carnaval, não importa período histórico ou localização. Na época do carne levare (“retirar a carne”) da Idade Média, quando a igreja católica consolidou as quatro semanas anteriores à Páscoa como período preparatório de jejum e oração e os dias que antecediam o tempo de restrições eram caracterizados por excessos, faz sentido que a comilança fosse elemento valorizado. A Era Moderna viu a festa consolidar contornos parecidos com os que se mantêm até hoje, sendo a tríade mencionada há pouco o principal deles. Pense no que seria a temporada carnavalesca de Nova Orleans sem a música creole, resultado do encontro de franceses com negros. Ou os dez dias de Carnaval em Veneza sem suas famosas máscaras. E o que dizer do Carnaval brasileiro sem o samba, as marchinhas, as alegorias e o consumo de cerveja, produto que, não à toa, costuma ser patrocinador graúdo dos dias de folia nas principais cidades do país?

 

Do entrudo ao samba


Hoje em dia, é difícil imaginar que um dos antepassados do atual Carnaval brasileiro tenha sido uma brincadeira politicamente incorreta, que não tinha qualquer trilha sonora característica. Assim era o Entrudo, que chegou aqui por meio dos colonizadores portugueses. O jogo era bem popular na terrinha e dava tanto trabalho às autoridades lá como aqui. O principal elemento era água suja ou pó e a graça toda era jogar nos outros no meio da rua. Música que é bom, nada. Vai entender o propósito disso.

No período da monarquia, a elite do país aderiu, claro, ao modelo dos requintados salões europeus, o de Veneza em especial, com bailes de mascarados em clubes e teatros. Dançava-se a polca e a mazurka, entre outros gêneros. É válido lembrar que, na ocasião, a ópera tinha grande popularidade na Itália. Se não a sua estrutura musical, mas sua estética, bem pode ter exercido alguma influência nos predecessores de Joãozinho Trinta (não à toa, uma cria do balé do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, chegando a ter participado da montagem de duas óperas naquela casa). Nas camadas populares, além do tradicional Entrudo, havia, ainda, a tradição dos escravos negros, de dançar nas ruas e fantasiar-se nos dias de folia.

Até o final do século 19, o Carnaval era bastante parecido em todo o Brasil, do ponto de vista da música e do comportamento social. Uma terça-feira gorda seria praticamente igual em Recife e no Rio, mudando o sotaque dos foliões. Por sua vez, os dias de folia em solo verde-amarelo não diferiam tanto assim da terra do bleu, blanc, rouge. Teria sido difícil, então, prever a diversidade de perfis que teria a festa em diversas regiões do Brasil no século seguinte, assumindo identidades que seguem a geopolítica local. O primeiro afoxé da Bahia foi organizado em 1895 – os Filhos de Gandhy viriam a surgir mais de cinco décadas depois. O Carnaval do Rio de Janeiro só seria oficializado pelo governo local em 1932.

Tudo caminhava sem grandes novidades até que a polca, ouvida e dançada nos finos ambientes fechados, deu um jeito de subir aos morros cariocas e encontrar a música típica dos negros. Da fusão, surgiu o samba. No começo do século 20, por mais que a presença popular fosse ganhando espaço nas ruas, ainda prevalecia o modelo europeu dos bailes de máscara dos mais abastados. Carnaval bom era o de elite. Mesmo os desfiles de rua eram território prioritário das grandes sociedades e dos ranchos, considerados sofisticados com seus enredos difíceis e visuais elaborados. “Até essa época, as escolas de samba estavam relegadas a terceiro plano, tinham dimensão menor. Em matéria de desfile, estavam abaixo das sociedades e dos ranchos”, aponta o jornalista Sérgio Cabral.

Nos anos 1930, interesses políticos possibilitaram que o Carnaval brasileiro assumisse de vez sua matriz africana e priorizasse o jeito negro de brincar os festejos. “A busca pela identidade nacional, típica do Estado Novo, encontrou no Carnaval sua mais genuína expressão, especificamente nas escolas de samba de origem escrava”, explica Felipe Ferreira, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e coordenador do Centro de Referência do Carnaval. “Foi assim que passista e mulata tornaram-se a grande expressão da essência popular, quase o símbolo do Brasil”, acrescenta Ferreira. “As escolas de samba viraram as grandes atrações”, completa Cabral. Será que Getúlio Vargas foi, então, o primeiro a concretizar a percepção de que tudo em nosso país acaba em samba?

 

Fonte Revista da Cultura - Edição 31 - fev 2010

 

Para ler a matéria na íntegra, clique aqui:  www.revistadacultura.com.br

Clique aqui para ver as fotos do Carnaval do Emilie.

 


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