Shoa

02/06/2010

 

Uma conversa séria com o passado
Sobrevivente do Holocausto, Nanette König, visitou o Emilie.

 

Nanette Konig, uma adorável senhora holandesa de 81 anos, esteve dia 21 de junho no Emilie para um encontro com os alunos da 2ª série do ensino médio. Tudo começou numa avaliação do final do bimestre...

“Professora, por que a gente não lê O diário de Anne Franck?” Confesso que por essa pergunta não esperava, mas ela foi mágica. Naquele momento, desfazia-se a imagem corriqueira de adolescência e preguiça literária... O livro não se encaixava oficialmente nos programas e na lista da Fuvest, mas cabe na vida, entra de cheio na História, na escrita, na Geografia humana, nos cálculos do absurdo e do desatino, na Literatura das dores e da vergonha. Na alma e no coração.
A pergunta virou inquietação (minha) e cobrança (deles). E depois um convite muito especial à senhora Nanette König que estudou com Anne Frank e a reencontrou num campo de concentração. Ela não hesitou em responder positivamente e a instalar em todos a expectativa de um encontro com uma parte da História que o mundo não pode esquecer: o Holocausto engendrado na Segunda Guerra Mundial.
Não acredito que haja palavras suficientes para expressar o que foi essa mancha na história da humanidade, mas estou persuadida, sobretudo depois do encontro com dona Nanette, de que há palavras para impedir que aquilo se repita. Palavras de denúncia, de indignação, de inconformismo, mas também de defesa, de tolerância, de liberdade, pela verdade. A 2ª. série do ensino médio está estudando morfologia aplicada à polissemia e estética, e está entendendo o peso das palavras que podem construir como arrasar. Nosso desejo, porque falo em nome de todos, é que eles sejam portadores de novas palavras de vida e atores de novos tempos.
Conversando com dona Nanette, é possível sentir toda sua coragem em falar a favor da verdade, contra a intolerância. Não se vê rancor ou raiva, apenas uma firme determinação de ser uma voz de paz por aqueles de quem a palavra foi violentamente arrancada, violentada.
Creio que as emoções do encontro com os alunos não devam ser registradas como reportagem, mas estou segura de que eles saberão levar adiante a ideia e o ideal.
Deixo a palavra com a história, com a memória:

“Sou Nanette Blitz Konig, nasci em Amsterdã, Holanda em 1929. Tive dois irmãos e era filha do meio. Meu pai travalhava no Banco de Amsterdã e teve de pedir sua demissão em 1941, porque como judeu não podia mais exercer sua profissão. Minha mãe era do lar. Meu irmão mais jovem morreu antes da guerra, em 1936. Tive uma infância normal e feliz, passávamos férias na Inglaterra, visitando a família da minha mãe e na Suíça. Frequentei uma boa escola pública e fazia muito esporte. Tudo isso acabou quando as tropas alemãs invadiram e ocuparam a Holanda em maio de 1940 sem nenhuma declaração de guerra. Cinco dias depois a Holanda capitulou.
Antes da guerra havia um anti-semitismo latente que veio à tona, assim que começou a perseguição no mesmo ano. A família real e o gabinete governamental fugiram para Londres antes da capitulação, deixando o alto escalão e os secretários gerais com as instruções que continuassem a funcionar sem causar anarquia. Isso significava não perturbar os nazistas que tomaram posse do país, mantendo uma aparência de soberania.
Uma medida atrás da outra contra os judeus foi tomada e transmitida através do conselho judaico à comunidade. Esse conselho cumpriu um papel polêmico durante a duração da perseguição. As autoridades holandesas não se opuseram às medidas, que tiraram o uso de bicicletas, carros e transporte público e os meios de comunicação. Também foram proibidos cinemas, parques, clubes de esporte. Lojas específicas eram abertas durante poucas horas durante o dia. Havia toque de recolher entre 20 h e 6 h. Fomos obrigados a depositar todos os bens num banco confiscado aos judeus, com a intenção de dar a impressão, no exterior, que os nazistas tinham interesse de cuidar dos bens dos judeus. Além disso, éramos reconhecíveis através da estrela amarela com a palavra judeu no meio, costurada bem visível na roupa.
Fomos tirados da casa no fim de setembro de 1943 e levados para o campo de transição, Westerbork, de trem. De lá, dois mil judeus eram deportados por semana em vagões de gado para os campos de extermínio na Polônia. No dia das listas para deportação, todo mundo ficava desesperado, não querendo acreditar no seu destino.
Em fevereiro, 1944 fomos levados de trem comum para Bergen Belsen, que não era um campo de extermínio em si, porém as condições eram tão deploráveis, que os prisioneiros morreram de fome, doenças e maus tratos. Bergen Belsen foi chamado um campo residencial e não de internação...
A vida no campo era uma constante luta pela sobrevivência. As latrinas eram imundas e os piolhos no cabelo e nas roupas causavam um constante desconforto. Falávamos muito sobre comidas por falta dela. Numa ocasião, já famintos, nos deram um caldeirão de mexilhões, mas não comi por medo da maldade dos nazistas. As severas diarréias faziam parte da vida do campo. Minha mãe foi várias vezes afetada, mas resistiu.
Ficávamos horas de pé, para sermos contados, qualquer que fosse o tempo e as condições físicas do prisioneiro. Uma vez durante uma chamada, enfrentei Joseph Kramer, o comandante do campo, mas por sorte não aconteceu o pior. Eu tinha muito medo dos cachorros, treinados para atacar. Outra vez, perto do fim da guerra, fui tirada da fila para buscar água. O guarda apontou sua arma em mim, mas de repente resolveu atirar no ar.
Meu pai morreu em Bergen Belsen em novembro de 1944, aos 47 anos. No dia 4 de dezembro meu irmão foi deportado para outro campo, Oranienburg e foi morto assim que chegou lá. Minha mãe foi deportada um dia depois de meu irmão para Magdeburg, perto de Beendorf, onde ela trabalhou em péssimas condições numa fábrica localizada numa mina de sal, 700 metros abaixo do solo. Em abril de 1945, ela foi levada com mais de duas mil mulheres num trem sem destino, que andou 12 dias antes da liberação. Ela morreu alguns dias depois da partida.
A partir de 5 de dezembro de 1945, fiquei sozinha em Bergen Belsen até a chegada das tropas britânicas, em 15 de abril de 1945. Estava mais morta do que viva, pesando um pouco mais que trinta quilos.”


Profª. Patrizia Bergamaschi

 

 Saiba mais

CICLO DE CINEMA: “SHOÁ, GENOCÍDIO E ENCARCERAMENTO - O CINEMA DO HORROR (SHOÁ), REFLEXÕES POR UM MUNDO MAIS TOLERANTE.”
Como mostrar o que não se pode mostrar? Como se lembrar do que não se deve esquecer? Como não repetir violências que se repetem diariamente? O cinema tem um papel complexo nessas “reflexões por um mundo mais tolerante”. Mídia de massa, industrial e comercial, o cinema é atravessado e representado por essas histórias, repetindo-as e as transformando em espetáculo: o cinema não é uma ferramenta moral. Mas, uma mostra de cinema pode desenvolver reflexões morais com base no diálogo entre filmes que remetem a essas questões. É esse dialogo que buscamos fomentar na mostra Shoá, genocídio e encarceramento: o cinema do horror – Reflexões por um mundo mais tolerante. Essa mostra acontece em parceria com a exposição Shoá – reflexões para um mundo mais tolerante.

20h00 | CURTA-METRAGEM: Avós, de Michael Wahrmann seguido do
FILME: Mensagens Para um Futuro Mais Tolerante
Dirigido por Anita Pinkuss e Paulo Baroukh, o documentário foi produzido a partir de depoimentos colhidos no Brasil para o acervo da USC Shoah Fundation Institute for Visual History and Education. 

  • Filmes: Anne Frank;
                  O Diário de Anne Frank 

 


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